Módulo 1, Aula 4

Baixa Idade Média

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O período compreendido entre os séculos XI e XV é conhecido como Baixa Idade Média, e pode ser dividido em duas fases:

– Primeira fase, entre os séculos XI e XIII, é um momento de expansão de diversos setores da vida da Europa Ocidental. Entre as transformações que revelam essa expansão podemos citar: a ampliação das culturas agrícolas, renascimento comercial e urbano, surgimento e fortalecimento da burguesia;

– Segunda fase, nos séculos XIV e XV, momento de depressão, por conta de uma série de acontecimentos que transformaram bastante a realidade europeia do período, dentre eles o declínio do feudalismo, que provocou a transição para uma nova sociedade a partir do fim da Idade Média.

Primeira fase:

No período compreendido entre os séculos XI e XIII, a Europa Ocidental viveu momentos de relativa paz, principalmente após o fim das sucessivas ondas de invasões germânicas que aconteciam até então. Para além disso, o espírito guerreiro da nobreza foi direcionado para outros fins que não lutar entre si, como por exemplo, a luta contra os pagãos[1] e os muçulmanos, por meio das Cruzadas. As Cruzadas foram um conjunto de expedições militares organizadas por autoridades da Igreja Católica e pelos nobres mais poderosos da Europa, com o objetivo declarado de libertar os cristãos e os lugares sagrados que estavam sob o controle muçulmano. Elas foram iniciadas no ano de 1095, quando os nobres cristãos, atenderam ao apelo do papa Urbano II para a guerra santa. Tiveram também como motivação o hábito guerreiro dos nobres feudais e o desejo de retomar importantes cidades comerciais que estavam em poder dos muçulmanos.

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Mapa das 8 Cruzadas. Retirado de: pinterest.com

Dentre as consequências das Cruzadas, podemos citar:

– o empobrecimento dos senhores feudais, que tiveram suas economias arrasadas pelos elevados custos das guerras;

– o fortalecimento do poder do rei, na medida em que os senhores feudais perdiam suas forças;

– a reabertura de rotas comerciais entre a Europa e o Oriente;

– a ampliação do universo cultural europeu, promovida pelo contato com o Oriente.

Isso proporcionou o crescimento populacional e a retomada de desenvolvimento das atividades econômicas.

Quanto ao desenvolvimento agrícola, até o século XI a produção atendia modestamente às necessidades da população europeia. As técnicas e os instrumentos utilizados na agricultura eram simples e não muito eficazes. Aos poucos, porém, as condições do mundo rural passaram por mudanças significativas.

Os servos, organizando diversas revoltas, conseguiram aliviar o peso de algumas de suas obrigações, como a talha e a corveia. As relações servis começaram a se modificar. Surgiu o arrendamento de terras entre servos e senhores feudais.

Ampliou-se também o cultivo agrícola com a ocupação de novas áreas de campos e florestas, surgindo novas culturas, como as de aveia, ervilha e vinha. Aperfeiçoaram-se as técnicas, o que auxiliou no aumento de produtividade. Alguns dos novos instrumentos agrícolas do período foram:

– charrua – arado (máquina de remexer a terra) puxado por bois ou cavalos;

– peitoral – instrumento feito de madeira que permitia a utilização do cavalo para puxar a charrua.

– ferradura – instrumento utilizado para proteger o casco dos cavalos em terrenos ásperos;

– moinho de água – equipamentos usados para moer cereais, acionar foles, quebrar minérios, etc. Milhares deles foram construídos na Europa, substituindo a força humana pela energia hidráulica.

Nesse cenário de expansão, houve crescimento demográfico por toda a Europa.

O comércio também se fortaleceu graças ao impulso na produção agrícola, o desenvolvimento do artesanato urbano e o maior contato com povos orientais. No período, se constituíram duas grandes rotas comerciais:

– rota comercial do norte, através do mar do Norte, passava por Dantzig, Lübeck, Hamburgo, Bremen, Bruges, Londres e Bordéus.

– rota comercial do sul, através do mar Mediterrâneo, passando por Barcelona, Marselha, Gênova, Veneza, Túnis, Trípoli e Constantinopla.  

Interligando essas rotas havia uma extensa rede de vias terrestres. Aos poucos, nos principais cruzamentos dessas vias, foram sendo organizadas grandes feiras comerciais, como as de Champagne (França) e Flandres (França e Bélgica), Veneza e Gênova (Itália) e Colônia e Frankfurt (Alemanha).

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A expansão do comércio impulsionou o aumento da produção artesanal, levando os artesãos a se organizarem em corporações do ofício, também conhecidas como guildas ou grêmios. As corporações tinham como objetivo defender os interesses dos artesãos, regulamentar o exercício da profissão e controlar o fornecimento do produto. Dirigiam também o ensino artesanal, que se dividia em três estágios: aprendiz, oficial e mestre.

O fortalecimento do comércio também influenciou no aumento das cidades, que se desenvolveram nas proximidades de rotas comerciais, de portos ou em regiões de feiras. No princípio, muitas dessas cidades eram cercadas por altas muralhas, constituindo um núcleo urbano fortificado denominado burgo. Os habitantes dessas cidades, em sua maioria comerciante e artesãos, eram chamados de burgueses. Com o tempo e o aumento da população, porém, os burgos foram crescendo e se ampliando para além dos muros. A expansão do comércio e do artesanato foi acompanhada pelo crescimento social da burguesia, ou seja, da classe de homens de negócios que viviam nas cidades, livres dos laços feudais.  

A princípio, muitas cidades pagavam taxas e impostos ao senhor feudal, pois estavam localizadas em áreas de seu domínio. Em troca, os burgueses exigiam direitos como os de livre comércio, proteção militar e liberdade para os cidadãos. Esses direitos foram estabelecidos em documentos, que preservavam a autonomia da cidade diante do poder do senhor feudal. As cidades independentes, chamadas de comunas, passaram a eleger um governo (prefeitos, magistrados), que se encarregava da administração e da defesa. Os burgueses mais ricos ocupavam os principais cargos das cidades. Elaboravam as leis, criavam tribunais, determinavam a cobrança de impostos para a construção de obras. Assim, as cidades se tornaram locais onde havia segurança e liberdade para aqueles que desejavam romper com a rigidez da sociedade feudal. 

Segunda fase:

Os séculos XIV e XV foram marcados por uma série de transformações que traduzem o esgotamento do sistema feudal. No fim do século XIII, as terras de boa qualidade haviam se tornado raras e a ocupação dos solos menos férteis resultou em uma queda na produtividade. Em várias regiões europeias houve perdas de colheitas, provocadas por fatores climáticos, guerras, técnicas inadequadas de cultivo, o que ocasionou em escassez de alimentos. Em consequência, milhares de pessoas morreram de fome, enquanto outras sobreviveram em grave estado de subnutrição.

Enfraquecida pela fome, enorme parcela da população europeia tornou-se vítima de doenças contagiosas, como a peste negra, epidemia trazida do Oriente por um navio contaminado. A doença é provocada pelo bacilo Pasteurella pestis, com duas formas principais de transmissão: a bubônica, onde o contágio se dava pela picada de pulgas vindas de ratos portadores do bacilo; e pulmonar, com a contaminação de uma pessoa para outra, pela tosse ou simplesmente pelo hálito.

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Ilustração da época sobre efeitos da doença. Retirado de: jnctomehistoriaearte.wordpress.com

A moléstia provocava uma infecção pulmonar, que geralmente levava à morte. A peste espalhou-se rapidamente, causando uma grande epidemia, havendo sucessivos surtos da doença ao longo do século XIV. Calcula-se que um terço da população de algumas regiões da Europa tenha morrido devido à doença.

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Mapas dos surtos da doença ao longo dos anos. Retirado de: pt.m.wikipedia.org

Houve também a questão das guerras. Durante certo tempo, as lutas dos cristãos contra os muçulmanos e os pagãos canalizaram o espírito guerreiro da nobreza feudal, a exemplo das Cruzadas, que funcionaram como válvula de escape para a agressividade dos nobres e cavaleiros cristãos. No século XII, porém, as Cruzadas encontraram seu fim. Sem um inimigo externo, desencadearam-se conflitos internos, no próprio mundo cristão.

Como consequência dessa multiplicação de guerras, podemos pensar nos saques de inúmeras cidades, que levaram a um novo sentimento de intranquilidade na vida urbana. Ao mesmo tempo, plantações devastadas provocaram desorganização na produção e crises de abastecimentos, com alta no preço dos alimentos. A própria atividade comercial foi prejudicada pelo clima de insegurança.

Entre os conflitos desse período, se destaca a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), entre França e Inglaterra, que teve como causas a sucessão dinástica e a disputa pela rica região de Flandres, onde se desenvolvia a manufatura de lã. O conflito propriamente dito foi uma sequência de combates com diversas interrupções. Em diferentes períodos, franceses e ingleses conseguiram vitórias significativas, até que finalmente o exército francês conseguiu expulsar os ingleses do território da França. A guerra, porém, prejudicou a vida econômica dos países envolvidos, empobrecendo boa parte da nobreza feudal. A autoridade do rei, porém, estava fortalecida, e isso possibilitou a construção da monarquia centralizada.

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Mapas da guerra ao longo dos anos. Retirado de: historiamilgrau.files.wordpress.com

Finalmente, o período também foi de crise religiosa. Apesar do poder da Igreja, nem todos seguiam rigidamente as regras religiosas católicas. Muitas comunidades desenvolveram suas próprias crenças, como a adoração de animais e vegetais, as adivinhações usando cartas, a necromancia, os encantamentos para promover o amor ou a separação de pessoas, etc. Por essas crenças e práticas, muitas pessoas foram perseguidas, acusadas de serem heréticas.

As heresias eram opções religiosas diferentes da doutrina católica, formadas, muitas vezes, de antigas crenças orientais, romanas, gregas e germânicas, existentes desde antes do predomínio cristão, que foram transformando-se no intercâmbio entre as culturas.

Entre as principais heresias medievais estava a dos cátaros, que teve início na Europa central, atual Alemanha, no início do século XII, e expandiu-se para a região francesa de Albi, onde seus praticantes ficaram conhecidos como albigenses. Acreditavam em um deus do Bem e outro do Mal; Cristo era visto como enviado do Deus do Bem para salvar as almas humanas. Para os cátaros, as almas salvas subiam ao céu após a morte do corpo, mas as almas pecadoras reencarnavam no corpo de um animal como castigo.

Na França do século XII difundiu-se também a heresias dos valdenses, fundada por Pedro Valdês, um rico comerciante que se converteu ao cristianismo e distribuiu sua riqueza aos pobres, reunindo um grupo de adeptos e pregando as virtudes da pobreza voluntária. Passaram a conflitar com a Igreja ao afirmar que os sacramentos não tinham valor se o padre que os ministrasse fosse pecador, enquanto a Igreja defendia o valor sacramental incondicional, pois eles vêm de Deus, não do sacerdote. Os patarinos, que se difundiram pelas regiões onde se situam as cidades de Milão, Cremona e Florença, também questionavam a validade dos sacramentos ministrados por sacerdotes pecadores.

Outra importante heresia foi o bogomilismo. Seus praticantes acreditavam que a Igreja de Roma foi corrompida pela riqueza e que o cristianismo verdadeiro existia apenas na pobreza e na vida simples. Além disso, combatiam o culto à Virgem Maria, aos santos e às imagens que havia nos templos.

Podemos entender, em resumo, que as heresias do período foram movimentos de reação de grupos religiosos populares a vários aspectos do cristianismo da época: o despreparo de grande parte dos sacerdotes paroquiais, desatentos às necessidades espirituais dos fiéis; a vida luxuosa do alto clero, mais preocupado com o acúmulo de bens materiais do que com a pregação do Evangelho; a aprovação da Igreja a um sistema social que explorava a maioria da população.

Para combater as heresias, o papa Gregório IX criou, em 1231, os Tribunais da Inquisição, cuja missão era descobrir e julgar os hereges. Os condenados pela Inquisição eram excomungados (excluídos da comunidade dos católicos) e entregues às autoridades do Estado, que se encarregavam de puni-los. As penas aplicadas a cada caso iam desde o confisco de bens até a morte na fogueira.

Porém, a crise religiosa não foi só por conta das heresias. Em 1309, o papa Clemente V moveu a sede da Igreja Católica de Roma para a cidade francesa de Avinhão, buscando manter boas relações com o rei da França e fugir das perturbações políticas que agitavam a Itália. A mudança da sede do papado provocou uma crise dentro da Igreja entre aos anos de 1378 e 1417, episódio conhecido como Grande Cisma do Ocidente, quando a Igreja foi governada por dois papas, um em Roma e outro em Avinhão.


[1] Nome dado, pelos cristãos, a quem não era cristão e que adoravam vários deuses. A maioria dos pagãos eram aqueles que continuaram a acreditar nos deuses dos povos germânicos e não cultuavam o Deus cristão.

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